O Globo e a Falácia Científica Contra a Cannabis

O Pêndulo do Retrocesso

“O movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.”

A lição hermética da Lei do Ritmo nos explica que todo grande avanço civilizatório enfrenta uma oscilação contrária. O artigo publicado por O Globo, intitulado “Cannabis, Judiciário e Ciência”, é o manifesto desse movimento retrógrado. É a tentativa de domínio de uma maré de conscientização que, finalmente, começa a des-cobrir a terapêutica escondida sob décadas de preconceito proibicionista.

Na tentativa de conter o avanço da medicina natural e da autonomia do paciente, o editorial incorre em devaneios técnicos que clamam por direito de resposta. Com natureza estritamente opinativa e em uma simplificação indevida de um tema que exige rigor, o texto utiliza-se de uma única metanálise[1] para concluir que a eficácia dos canabinoides é “incerta” agitando um movimento contrário a políticas públicas e decisões judiciais consolidadas ao longo de anos de avanço.

O estelionato intelectual do editorial, ou melhor dizendo, a desinformação seletiva trazida pelo jornal, não é apenas metodológica, mas ética. Ao citar a metanálise de Jack Wilson, o jornal faz um recorte cirúrgico proposital. Expõe os limites da Cannabis na psiquiatria — onde a ciência ainda busca protocolos — mas silencia sobre os ganhos indiscutíveis da mesma substância no tratamento da dor e de patologias neurológicas. O jornal utiliza a régua da dúvida para medir certezas já consolidadas e, inclusive, reconhecidas pela Anvisa e pelo judiciário.

O “abismo” mencionado não está entre a planta e a ciência, mas entre a honestidade intelectual e o lobby do retrocesso. Chamamos isso de “Ciência da Conveniência”. Uma espécie de cerceamento cognitivo por recorte metodológico. Tenta-se induzir o leitor ao erro ao sugerir que, se a eficácia é questionável para um transtorno específico, ela também sereia para todos os outros. Uma generalização apriorística que ignora a integralidade epistêmica da ciência canábica.

O jornal, na tentativa de demover todo um avanço, se vale de opiniões de “pop-science”, cujas teses não possuem validação clínica alguma. Essa estratégia nada mais é que um recurso retórico que esvazia a consistência técnica do argumento apresentado. Trata-se de substituir a ciência pela opinião.

Devemos dizer que a abordagem adotada pelo Globo ignora que o fornecimento de medicamentos pelo Estado não decorre de “voluntarismo judicial”, mas da concretização de um direito fundamental previsto na Constituição e reconhecido pelos Tribunais, inclusive pela Corte Suprema, conforme fixado no Tema 1161. O direito à saúde não pode ser condicionado a flutuações editoriais ou à opinião pública.

Sabemos da tentativa do obscurantismo de inviabilizar o acesso a tratamentos potencialmente eficazes em contextos de doenças graves e refratárias. O pretexto de “drenar recursos”, esconde, na verdade, a manutenção do lucro. A cannabis como terapêutica produz um prejuízo incalculável para indústria farmacêutica, uma vez que o paciente que passa a se tratar com a planta deixa de utilizar outros inúmeros medicamentos sintéticos. Não por acaso, o texto ignora o impacto positivo da Cannabis na redução de internações e no desmame de opioides por exemplo. Estes sim possuem um custo humano e financeiro devastador, mas foram solenemente ignorados pelo jornal.

A discussão deve ser conduzida com base em evidência qualificada e respeito aos direitos fundamentais, não a partir de generalizações que desinformam e manipulam a opinião pública. Enquanto isso nosso papel é neutralizar o pêndulo da ignorância com o bom combate. Enquanto a força tenta oscilar para a sombra, seguiremos empurrando a maré em direção à luz da verdade.


[1] Wilson et al., 2026